Não é à toa que o nome babaçu, uma árvore nativa brasileira, tenha origem na palavra indígena "wawasu" que significa "fruta grande". É uma palmeira que pode chegar a até 30 metros de altura, com uma produção de três a cinco cachos exuberantes, cada um contendo centenas de cocos. A imponência dessa gigante da natureza se revela na capacidade de resistir a queimadas e ataques de predadores, bem como estabelecer uma relação única com a espécie humana.
Beneficiar-se da abundância dessa vegetação, no entanto, requer mais paciência do que habilidade. É que os frutos começam a surgir a partir do oitavo ano de vida da palmeira; mas quando ela atinge essa idade e começa a frutificar, é sinal de que a espera valeu a pena. A planta mantém um nível de reprodutividade intenso e segue no mesmo ritmo ao longo de cerca de 35 anos.
Entre a espera e a bonança, existe um grupo de extrativistas que preserva a tradição secular de coleta do babaçu, quebra do coco e aproveitamento de todas as suas partes. São as quebradeiras de coco, que vivem, principalmente, nos estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, na fronteira dos biomas Amazônia e Cerrado, região conhecida como Mata ou Zona dos Cocais. Nessa área, elas se dividem entre a tradição e os desafios de preservar modos de produção sustentáveis, de geração para geração.
RELAÇÃO AFETIVA
Cledeneuza Oliveira mora em São Domingos do Araguaia, no sudeste do Pará. Aprendeu com suas antepassadas sobre a coleta do babaçu e, desde cedo, é uma quebradeira de coco. Ela conta que culturalmente as mulheres estabelecem uma ligação de “mãe e filha” com a palmeira, cujo nome científico é Attalea speciosa.
“A palmeira de babaçu, para nós, é muito importante. A gente até chama de mãe, porque é de onde nós tiramos o nosso sustento. Todo ano, a vida inteira, nós quebramos o coco, fazemos o azeite, fazemos o leite para temperar nossa comida, também fazemos o sabão. Então, tudo isso foi gerando renda para garantir a nossa família”, afirma a quebradeira.
Guilhermina Cayres, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) do Maranhão que atua junto às quebradeiras, explica que essa relação maternal se mantém pela forma como os derivados do vegetal são aproveitados na sua totalidade.
“A amêndoa e o mesocarpo [camada intermediária e carnuda do fruto] se transformam em alimentos como azeite, óleo, pães, biscoitos, bolos, sorvetes, mingaus, bebidas e outros. O epicarpo (casca) se transforma em carvão vegetal para uso doméstico e também como fonte de renda. As folhas e o endocarpo (parte mais densa do coco) se transformam em artesanato, cobertura de casas, pilares para construções diversas e objetos de uso doméstico”, explica Guilhermina.

Além disso, há outros benefícios oriundos do fruto, como o gongo, larva de um tipo de besouro que se desenvolve dentro do coco e é utilizada como alimento rico em proteína, e a palha, usada na produção de cestaria.
Lógica é de sustentabilidade
O respeito ao ciclo natural da espécie e o aproveitamento de todas as partes do fruto evidenciam a preocupação das quebradeiras com a sustentabilidade e a preservação dos saberes tradicionais.

O agrônomo Bernardo Tomchinsky, professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), também atua junto às quebradeiras de coco, especificamente com as do sudeste paraense. De acordo com o docente, as quebradeiras atuam de um jeito organizado.
“Elas têm uma organização que está relacionada principalmente à coleta, ao extrativismo e à produção dos produtos derivados do babaçu. Elas atuam principalmente por meio do uso sustentável do fruto e da produção do alimento e do artesanato. No sudeste do Pará existe um coletivo de mulheres organizadas, na região do Araguaia, nos municípios de São Domingos do Araguaia, Brejo Grande do Araguaia, Itupiranga e São Domingos do Araguaia”, afirma o docente.
A quebradeira Cledeuneza ratifica essa ideia. Para ela, não haveria sentido destruir e desperdiçar a principal fonte de renda e de subsistência da comunidade. “As palmeiras ficam em pé, só apanhamos o coco que está no chão. Nós preservamos o ambiente onde trabalhamos. E contribuímos para a bioeconomia, porque nós temos os produtos limpos, que são o óleo, o azeite, o sabão. Para nós, isso é importante, porque estamos contribuindo para o meio ambiente, para a biodiversidade”, afirma a extrativista.

DESAFIOS
O manejo sustentável do babaçu vai muito além de contribuir para a preservação da Amazônia. O saber das quebradeiras também representa a manutenção de práticas culturais, saberes ecológicos e sistemas de produção que respeitam o curso da natureza, sem exigir dela uma safra acelerada que atenda a uma grande demanda que vem de fora da floresta.
Mas enquanto a sustentabilidade é palavra de ordem no extrativismo do babaçu, o mesmo não se pode dizer sobre o acesso às áreas onde a espécie germina. Normalmente, as palmeiras crescem dentro de áreas privadas e pastagens, lugares onde as quebradeiras precisam de autorização dos proprietários para realizar a coleta dos frutos que estão no solo.
A quebradeira Maria de Souza, de Itupiranga, no Pará, denuncia que alguns donos de áreas de uso particular ou marcada por conflitos fundiários dificultam o acesso delas e contaminam os babaçuais.
“Hoje em dia a gente vê que as nossas palmeiras estão envenenadas. O drone joga os venenos. Aqueles cocos que estão no chão, estão envenenados. Então, a gente não pode pegar aqueles produtos e comercializar, as pessoas que comerem vão se contaminar”, reclama a quebradeira.

Legislação protege as extrativistas
O trabalho e a permissão para que as quebradeiras de coco possam ter acesso a áreas particulares ou pertencentes à União são regidos por alguns instrumentos legais que buscam o fortalecimento da categoria e a valorização da atividade. Um deles é a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, que garante que essas comunidades tenham acesso livre aos recursos naturais para sua sobrevivência.
Destaca-se também a Lei 10.930/2025, sancionada pelo governo do Pará, que declara e reconhece os saberes e a identidade cultural das quebradeiras de coco babaçu como Patrimônio de Natureza Imaterial do Estado. O mecanismo incentiva a visibilidade dessa prática tradicional, reconhecida também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Há ainda a Lei Babaçu Livre, principal bandeira de luta do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que reúne mulheres dos estados do Pará, Maranhão, Piauí e Tocantins, somando mais de 300 mil trabalhadoras rurais. A lei proposta pelas quebradeiras já vigora nos estados do Tocantins e Maranhão (neste, apenas em terras públicas) e em mais 18 municípios brasileiros: quatro no Tocantins, doze no Maranhão e dois no Pará.
Em linhas gerais, a Lei Babaçu Livre reconhece o direito das quebradeiras ao território onde há palmeiras de babaçu, permitindo o acesso livre para coleta mesmo em áreas privadas; proibindo queimada, derrubada ou envenenamento do babaçu; vetando o corte dos cachos inteiros, para respeitar o ciclo de vida da palmeira; e proibindo a queima do coco inteiro para transformação em carvão, o que ameaça o sustento das quebradeiras e o aproveitamento integral e sustentável do fruto.

A quebradeira Cledeneuza celebra a conquista de poder coletar a matéria-prima que sustenta a família, já que São Domingos do Araguaia é uma das cidades paraenses onde a lei já está em vigor. “É uma garantia de que a gente pode continuar com as nossas atividades, pegando o produto lá nas terras dos outros. E também a lei nos protege, nos faz participar de projetos, nos faz ter esse reconhecimento. Ajuda a conquistar nosso espaço, nossa sede, nosso maquinário para trabalhar e fazer a nossa produção com qualidade”, comemora.
CIÊNCIA
Seguindo a máxima de que, com o babaçu, nada se perde, tudo se cria, a Embrapa Maranhão vem apostando em projetos junto a quebradeiras de coco para desenvolver produtos e processos alimentícios a partir do aproveitamento integral das partes comestíveis presentes no coco babaçu.
De acordo com a agrônoma Guilhermina Cayres, que coordena a iniciativa, entre 2011 e 2024 foram realizadas consultas a representantes de cerca de 40 grupos agroextrativistas, que receberam a visita de pesquisadores, professores, chefs de cozinha e outros profissionais, para conhecer os meios de vida e de trabalho das mulheres, tanto no campo quanto na agroindústria.

Por meio de todo esse processo, foram criadas, em coautoria com as quebradeiras, novas formulações a partir do babaçu, que agregam o saber tradicional ao conhecimento técnico-científico. Alguns exemplos dos produtos inovadores criados são sorvete, biscoito, hambúrguer, farinha de amêndoa e queijo e leite vegetais.
“Atualmente, elas são convidadas ou contratadas para treinar novos grupos e, dessa forma, se tornam referência da inovação social e da gestão dos empreendimentos comunitários, atendendo nichos de mercado que valorizam a identidade sociocultural e a importância ambiental das quebradeiras de coco na conservação de uma espécie da sociobiodiversidade”, enfatiza Guilhermina.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.