Pensar em produção de conhecimento científico sobre a Amazônia, por muito tempo, significou consumir conteúdos vindos de outras partes do Brasil e do mundo. De pesquisas a soluções para os problemas enfrentados na região, o interesse geral em debater, analisar, estudar e apresentar questões relacionadas à realidade vivida pelos quase 30 milhões de habitantes do bioma nem sempre teve escuta ativa e atenção dadas a aqueles que compõem esse cenário – e que nele sobrevivem e sobre ele também refletem. Essa falta de visibilidade do saber, das opiniões e proposições locais sobre o que impacta esse território, para se valorizar quem faz parte de seu contexto, é um dos principais desafios apontados por pesquisadores e pela população tradicional amazônica.
Porém, há 50 anos, uma boa parte desse pensamento sobre a Amazônia já é refletido diariamente pelo trabalho desenvolvido no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA). Essa formação local para a gestão pública, política e econômica, traduzida em números - 303 doutores e 499 mestres já foram graduados pelos programas do NAEA/ UFPA -, faz parte do legado da instituição, que também conta com atuações em projetos internacionais, nacionais e regionais.
O protagonismo de cientistas da região para lidar com as questões passa a ser cada vez mais fundamental e urgente, dado o contexto que o bioma amazônico tem enfrentado nas últimas décadas, e frente à sua crescente importância para a atenção internacional, quando se listam desafios ambientais, climáticos e econômicos globais.
Diferencial
O entendimento dessa realidade por quem vive na Amazônia e a capacidade de buscar soluções próprias, pensadas a partir de uma observação mais profunda, é tido como um dos diferenciais dos cientistas formados pela instituição. O diretor do NAEA/ UFPA, Armin Mathis, entende que os pesquisadores amazônicos não são os únicos dentro do eixo de estudos sobre a região. Porém, a condição de habitantes do bioma é um passo além. “Isso significa que nós, primeiro, temos uma vinculação muito forte com o ensino, todas as teses são produção de conhecimento novo na região sobre a região. Mas também implica a formação de pessoas aqui. Isso é um dos maiores diferenciais”, pondera.
Dentro das análises já realizadas pelo NAEA/ UFPA, o pioneirismo que docentes da instituição obtiveram ao longo dos anos também é destacado como um dos legados que fazem parte da história de protagonismo. Na Amazônia, lembra Armin, duas mulheres do Núcleo foram responsáveis por iniciar os debates a respeito da população quilombola e demais comunidades tradicionais. “As pesquisas das professoras Edna (Edna Maria Ramos de Castro) e Rosa (Rosa Elizabeth Acevedo Marin) foram as primeiras a estudar os quilombolas e a discutir essa questão dos remanescentes”, destaca.
Custos
O NAEA/ UFPA calcula que manter um pesquisador em campo na região amazônica custa entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil por dia. Nessa conta, estão incluídos os gastos com os deslocamentos, alimentação e estadias. “Produzir ciência na Amazônia é uma questão cara, porque nós temos longas distâncias para percorrer. O valor está incluindo os custos de deslocamento e diárias. Por que? As tarifas de voos saindo de Belém são caras, fora o deslocamento de barco. Nós temos uma certa restrição em relação aos recursos”, pontua Armin.
Por isso mesmo, ele defende que o aporte financeiro voltado para a pesquisa na Amazônia seja maior do que o dedicado a outras localidades, por conta das especificidades da região. “Temos longas distâncias aqui, que eu preciso me deslocar por avião, fretar um barco, não tem como ser diferente... Então, isso significa que temos que ter recursos. Pesquisa na Amazônia não é uma coisa barata. Então, eu não posso comparar um projeto para ser executado na Amazônia com um que é executado no Sul”, compara.
Bragança forma mais uma turma de interiorização
Os programas de pós-graduação do NAEA/ UFPA alcançaram a nota mais alta dentro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Dar prosseguimento a esse processo pede, muitas vezes, inovação. Por isso, o NAEA/ UFPA passou a desenvolver projetos que dão espaço maior para a população do interior paraense, como a chamada “Interiorização”. O professor coordenador do programa de Desenvolvimento Sustentável no Trópico Úmido do NAEA/ UFPA, Thales Canete, explica que a ideia da ação é formar senso crítico em todas as partes que compõem a Amazônia. Inicialmente, o município de Bragança, no nordeste paraense, foi o primeiro a receber o curso.
“Estamos na segunda turma de Bragança. A gente lança o edital, nossos professores dão as aulas, orientam os alunos e, aí, vamos formando essas pessoas. A ideia é deixar a ‘sementinha’ do NAEA, da crítica ecológica e da interdisciplinaridade. Também temos, nesse processo de interiorização, o edital especial, que significa que nós abrimos um edital especial para povos e comunidades tradicionais. A ideia é que quando termine o curso, a gente deixe essas pessoas com senso crítico e a capacidade de inaugurar e iniciar os seus próprios projetos em Bragança. E para que as pessoas que são de comunidades tradicionais possam também ter esse canal do NAEA para acessar esses espaços das pesquisas internacionais”, afirma.
A “interiorização” auxilia no caminho de evidenciar as pessoas que estão na Amazônia, visando tanto o desenvolvimento sustentável, quanto o econômico, com respeito aos limites ecológicos e à justiça social. Thales reforça, ainda, que a formação expandida não é engessada, mas dinâmica e com atenção aos padrões encontrados na região. “A ideia não é que o NAEA chegue e eduque, mas é que o NAEA aprenda também, seja um canal para que essas pessoas acessem os outros locais e essas pessoas ensinem de quem é a Amazônia. Por muito tempo, o mais comum era pesquisadores de fora virem, pesquisarem e retornarem. E agora a gente quer o inverso”, destaca.
Educação ambiental e desenvolvimento sustentável
O foco do trabalho que o NAEA/ UFPA tem colocado em prática é a educação ambiental como forma de construir políticas públicas de desenvolvimento sustentável. A professora Marilena Loureiro, também do programa de Desenvolvimento Sustentável no Trópico Úmido, atua nessa missão. “Já possuímos vários estudos cujos resultados já demonstram um campo teórico em franca consolidação, que já nos habilita a dizer que não é mais possível ou, ao menos, adequado, falar de política e de prática educacional na Amazônia sem que esta educação esteja referenciada na análise das grandes questões socioambientais amazônicas. Isso implica pesquisa e conhecimento da realidade”, ressalta Marilena.
“Sem esse pressuposto, a educação de nossas crianças e jovens estará fadada a reproduzir realidades existentes e a manter a cultura de subalternidade imposta à região pela hegemonia da política de desenvolvimento baseada na negação das vozes e dos saberes das populações tradicionais amazônicas. A Amazônia precisa pensar a si mesma e a partir de si mesma e isso não implica em adesão a discurso localista. Implica unicamente na percepção de que é necessário partir de análises sérias acerca de nossas grandes e emblemáticas questões socioambientais. Isso se faz com ciência de qualidade em diálogo com a realidade. E isso nós fazemos aqui mesmo na Amazônia há 50 anos e sob a forma de diversas cooperações de caráter nacional e internacional”, completa Marilena.
De portas abertas para o mundo
Um outro ponto importante dos 50 anos de história do NAEA/ UFPA é a parceria realizada com outras instituições internacionais. O objetivo é garantir o desenvolvimento regional por meio do recebimento e envio de pesquisadores para outros países. O alemão Oliver Dinius é professor-acadêmico de História e tem como especialização os estudos envolvendo o Brasil. Ele está há menos de um mês em Belém – por meio de uma bolsa estadunidense - e busca uma vivência maior com as tradições locais para poder escrever um livro sobre a Amazônia, assunto que o interessou há mais de 20 anos, quando fez um curso em Harvard, nos Estados Unidos, e repassar os conhecimentos que adquiriu.
“Eu queria entender um pouco melhor o que está mesmo acontecendo e quais são as perspectivas da população da região. Então, estou muito interessado em conversar com estudiosos, professores, pessoas da região, entender melhor e poder explicar, de certa forma, para os meus amigos, mas também para pessoas da mesma idade, o que está acontecendo, e não só (a questão) da distância, mas da população, da realidade...”, destaca Oliver. Os padrões econômicos, geográficos e climáticos, que antes eram abstratos para o pesquisador, agora serão analisados de forma mais profunda. “O objetivo é escrever um livro. Tenho começado a escrever uma parte mais histórica, preciso aprender da prática”, complementa.
Legado
Aluna de doutorado do NAEA/ UFPA, Karen Santos desenvolve pesquisa na linha de “Sociedade, Urbanização e Estudos Populacionais”. Segundo ela, a maior motivação para ingressar no doutorado foi a vivência profissional em contato com mulheres do sistema prisional do Pará. Para o futuro, Karen afirma que quer seguir a docência com uma perspectiva regionalista e territorial, focando na Amazônia e para a Amazônia. “O NAEA é patrimônio histórico material e imaterial na construção do conhecimento na Amazônia. Por isso, mantê-lo ativo e impulsioná-lo é um dever histórico, cultural, acadêmico, político e econômico com as comunidades locais que são o foco de estudos dos pesquisadores ao longo dessas cinco décadas”, destaca Karen.