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AVIAÇÃO

Amazônia é desafio para o transporte aéreo

Longas distâncias, mata fechada, falta de pistas de pouso são algumas das características que exigem coragem em operações de fiscalização, busca e salvamento e combate a incêndios. Socorro pelo ar é também, muitas vezes, a última esperança na luta pela vida

Alice Martins

Com informações de Eduardo Rocha e Tarso Sarraf

02/09/2022

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Dia 5 de setembro é oficialmente o Dia da Amazônia. Com uma extensão territorial quase oito vezes maior que a França, a Amazônia Legal desafia, a todo momento, quem a percorre. Por terra, a maioria das rodovias está em situação precária; pelos rios e trilhos, a realidade é que o potencial desses modais transporte é subaproveitado, como mostrado nas duas reportagens anteriores desta série do Liberal Amazon. Por isso, o transporte aéreo é, em muitos casos, uma solução para o poder público chegar às comunidades isoladas e para o mercado fazer o transporte de produtos e serviços.

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Major Gustavo Bolentine - foto: Luiz de Castro/SSP - Tocantins

Mas, sobrevoar a Amazônia também é um grande desafio, mesmo para os pilotos mais experientes. O major Gustavo Bolentine, 36 anos, atua na aviação da Polícia Militar há 11 anos, no Tocantins, um estado dividido entre os biomas Amazônia e Cerrado. Para ele, a diferença entre atuar em um bioma e outro é muito clara: “No Cerrado, as árvores são mais espaçadas e a vegetação é mais baixa. Assim, é mais fácil de encontrar uma área de pouso. Já na área amazônica é completamente diferente. Aqui no Tocantins, o bioma amazônico se concentra no Parque do Cantão, um ambiente de mata fechada”, descreve.

O major atua como diretor do Centro Integrado de Operações Aéreas (CIOPAER), e tem vasta experiência em missões de combate a incêndio na floresta. Diante do fogo se espalhando, e com a mata fechada, ele lembra que pousar é sempre uma operação delicada. Muitas vezes, a equipe precisa abrir espaço manualmente, com um dos tripulantes descendo de rapel e usando um facão para criar o mínimo espaço para o helicóptero pousar. “É sempre um desafio muito grande. Tem árvores muito altas que não permitem a aproximação da aeronave ao solo com segurança, temos que pensar em formas de agir diante de cada situação. Todas as missões no Parque do Cantão deixam marcas profundas nos integrantes do CIOPAER”, afirma.

Pandemia - Além desse tipo de operação, o trabalho dos pilotos na Amazônia em muitos outros momentos, representa o socorro que vem do céu. Durante a pandemia de covid-19, as aeronaves foram muito utilizadas, seja no transporte de vacinas e de equipamentos ou na transferência de pacientes partindo de locais com pouca estrutura rumo a outros municípios, com maiores capacidades para atender pacientes em estado grave. A situação foi semelhante em todos os estados da região amazônica.

No Pará, as aeronaves a serviço das equipes de saúde que lutavam contra a covid-19 ajudaram a salvar vidas como a do agente administrativo, Edinilson de Souza Pires, 49 anos. Morador de Almeirim, no oeste do estado, uma cidade de 34 mil habitantes, que faz fronteira com o Suriname e com o estado do Amapá, Ednilson ficou três dias internado no município, porém, seu estado crítico demandou uma transferência por Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aérea até o Hospital de Campanha de Santarém, em uma viagem que durou 50 minutos. Se fosse pelo rio, a viagem de lancha, no mesmo trecho, seria de pelo menos 8h.

Hoje, Edinilson está recuperado e retomou as atividades normalmente, apenas tratando uma última sequela da covid-19: a perda de memória. “Mas essa lembrança de ter minha vida salva pelos céus eu não esqueço”, brinca. “Essa viagem em uma UTI aérea mudou a minha vida completamente. Eu passei a dar mais valor à vida, às pessoas, à minha família", finaliza.

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Edinilson Pires precisou do socorro de UTI aérea em sua luta contra a Covid-19. A viagem de Almeirim para Santarém, no Pará, durou 50 minutos, em vez das 8 horas que levaria se fosse feita de lancha - Foto: Tarso Sarraf

UTIs aéreas socorreram mais de 1,4 mil pessoas no Pará

O voo de UTI aérea que salvou a vida do agente administrativo Edinilson de Souza Pires foi um dos 1.461 realizados no Pará, entre março de 2020 e dezembro de 2021, devido à pandemia da covid-19, segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Pará (Sespa). Os dados referentes a 2022 ainda não estão disponíveis.

Segundo a Sespa, durante os voos, é obrigatória a presença de um médico e um enfermeiro, além da equipe de tripulação e um acompanhante do paciente. O enfermeiro Breno Lins estava na equipe da UTI aérea que prestou socorro ao paciente Edinilson Pires, durante a viagem de Almeirim para Santarém. O profissional comentou sobre o desafio que as aeronaves têm ao pousar em locais de difícil acesso. "Um exemplo é Almeirim, um lugar muito restrito, com restrição de aeronave de pouso, é uma pista de piçarra, e aí a gente tem que ter uma equipe preparada, especializada para o tipo de operação que vai acontecer", ressaltou Breno.

“Helibaldes” têm papel importante no combate às chamas

O Centro Integrado de Operações Aéreas (CIOPAER) do Tocantins é um órgão responsável pelo policiamento pelos ares e também atuações como resgates, deslocamentos, levantamentos, buscas e salvamentos, combate a incêndios e defesa civil. O Centro reúne as polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Penal do Tocantins. Sua base está na capital do estado, Palmas, de onde parte para todo o restante da extensão territorial de 277,6 mil quilômetros. “O uso da aeronave no estado trouxe agilidade na atuação. Em um trecho onde normalmente demoraria 6h ou 7h de viagem de ambulância, por rodovia, com o helicóptero fazemos o mesmo percurso em 45 minutos. Isso faz toda a diferença em dar uma resposta médica adequada e salvar vidas, em especial para comunidades isoladas, como terras indígenas”, explica o major Gustavo Bolentine.

O grupamento aéreo também permite combater incêndios e atuar na preservação de áreas onde, anteriormente, o acesso era muito limitado, pois não há caminho terrestre. “Junto ao Instituto de Natureza do Tocantins, fazemos desde ações preventivas até apagar incêndios com os chamados ‘helibaldes’, que são grandes bolsões de água, que carregam mais de 500L por viagem e que têm um resultado muito efetivo”, exemplifica. Com os “helibaldes”, basicamente, os bombeiros conseguem jogar água diretamente dos céus até a mata, apagando o fogo com mais precisão e agilidade. De acordo com o Monitor do Fogo do Mapbiomas, de janeiro de 2021 a julho de 2022 as queimadas no estado do Tocantins consumiram mais de 2,2 milhões de hectares de floresta.

Desaparecidos - Os grupamentos aéreos também são responsáveis pela busca por aeronaves e pessoas desaparecidas na mata. “Há pilotos que perdem o controle da situação e, diante de uma floresta fechada, como na Amazônia, fica difícil de pousar e ter uma referência geográfica”, explica o diretor do Centro Integrado de Operações Aéreas do Tocantins (CIOPAER), major Gustavo Bolentine. 

Um caso recente foi do piloto paraense Robert Bento dos Santos Menegace, que voltava de um garimpo, no dia 24 de junho de 2022, quando desapareceu na fronteira do Brasil com a Venezuela. A suspeita é de que a aeronave, do tipo monomotor, que ele pilotava, possa ter sofrido algum tipo de pane e feito um pouso forçado na mata. Até o fechamento desta edição, Robert continuava desaparecido.

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Sobrevoar a Amazônia requer das equipes coragem e vasta experiência em voos - Foto: Tarso Sarraf

Integração pelo ar tem papel importante na região 

Nesses quase 12 anos de atuação, o CIOPAER do Tocantins já realizou mais de três mil horas de voo e conta com uma equipe de 25 pessoas, dentre mecânicos de avião, pilotos, operadores técnicos de abastecimento e um auxiliar administrativo. De acordo com o major Gustavo Bolentine, sempre que necessário, o Centro conta também com apoio de unidades de estados vizinhos, como o Maranhão, que auxilia na região do Bico do Papagaio, situada no extremo-norte do Tocantins, que, geograficamente fica mais próximo de Imperatriz (MA) que de Palmas.

Na fronteira com o Pará, o Grupamento Aéreo de Segurança Pública (Graesp) também auxilia nas operações. Existente no Pará desde 2004, o grupamento é vinculado à Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) e atualmente, conta com uma frota de 14 aeronaves e um quadro técnico de 42 pilotos e outros profissionais especializados, que fazem a cobertura da extensão territorial de 1,2 milhão de km² do estado. O Graesp é integrado com todas as secretarias do estado, como de Saúde, Educação, Meio Ambiente e Sistema Penitenciário. 

FAB atua na fiscalização e defesa do espaço aéreo

A Força Aérea Brasileira (FAB) também atua na Amazônia, para o controle do espaço aéreo e a defesa da soberania nacional. Um destaque é o combate à atividade ilegal de garimpo, em ações que incluem a destruição de estruturas e equipamentos de garimpo, apreensão de munição, transporte de equipes de Policiais Federais e de outros agentes. 

As aeronaves da FAB também são responsáveis pela intercepção de voos irregulares que possam estar ligados a crimes. Além disso, a FAB participa da destruição de pistas de pouso clandestinas e realiza ações preventivas e repressivas contra crimes como crimes ambientais, contrabando, descaminho e narcotráfico. 

De acordo com dados do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, nos últimos três anos, foram realizadas 652 interceptações com aeronaves em todo o Brasil e, em 2021, a operação resultou em cerca de 1.680 kg de drogas apreendidas no país. A reportagem do Liberal Amazon solicitou entrevista e dados específicos sobre a Amazônia, mas não obteve as informações até o fechamento desta edição. 

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Manaus, no Amazonas, concentra mais de 90% da movimentação de cargas aéreas da região - Foto: Divulgação Vinci Airports

Manaus se destaca na movimentação de cargas aéreas na região

Além dos serviços públicos que atendem à população, o modal aéreo na Amazônia tem papel importante para a economia, no transporte de cargas e de pessoas. No ano passado, a movimentação nos Terminais de Logística de Cargas (Teca) da Rede Infraero, na Amazônia foi de mais de 35 mil toneladas. O levantamento feito pela Infraero  considerou cinco aeroportos da Amazônia (de Belém, Boa Vista, Manaus, Macapá e São Luís). Manaus, no Amazonas, concentra 92% desse total (32.332 toneladas). 

De acordo com Augusto Barreto da Rocha, diretor adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM) e professor da  Universidade Federal do Amazonas (UFAM), esse destaque de Manaus se deve à ligação com a Zona Franca, que, desde 1967, surgiu com objetivo de ser um porto livre destinado ao armazenamento, beneficiamento e retirada de produtos do exterior.

A área abriga um dos principais parques industriais do país, responsável por um dos maiores índices Produto Interno Bruto (PIB) da indústria brasileira, o Polo Industrial de Manaus (PIM). “O Polo Industrial é muito próximo do aeroporto de Manaus, por isso é muito competitivo. As principais cargas que chegam são componentes eletrônicos e as que saem [do município] são as commodities de alto valor agregado, como eletrônicos e telefones celulares”, explica, ressaltando que Manaus é um dos epicentros da região no transporte aéreo de cargas, juntamente com Belém. 

Melhorias e interiorização dos aeroportos

De acordo com a  Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), 11,8 milhões de passageiros embarcaram ou desembarcaram em 2021, nos 59 aeroportos de nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), em voos domésticos pagos.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Satisfação do Passageiro e de Desempenho Aeroportuário, aplicada nos 20 principais aeroportos do país, o Aeroporto Internacional Val-de-Cans, em Belém (PA) é o que aparece em pior posição no ranking. Já o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus (AM) ficou em 7º lugar. Os demais aeroportos da Amazônia não aparecem dentre os principais do país. 

O estudo foi aplicado no quarto trimestre de 2021 e avalia a experiência dos passageiros em diversos itens de infraestrutura, atendimento e serviços, e em diferentes processos aeroportuários como check-in, inspeção de segurança e restituição de bagagens. 

Diante dos desafios na região, o diretor-adjunto da FIEAM, Augusto Barreto, espera que os novos modelos de concessão que estão sendo aplicados melhorem as condições internas dos aeroportos na Amazônia e ampliem as possibilidades para a região. Diversos aeroportos já foram privatizados em leilão, recentemente, e estão sendo administrados pela iniciativa privada, como os de Manaus e Porto Velho (RO). O último leilão realizado, até o momento, foi o dos aeroportos de Belém, Marabá, Santarém, Parauapebas e Altamira, todos no Pará. Segundo o Ministério da Infraestrutura (Minfra), está previsto para 2023 a concessão conjunta de mais oito aeroportos, desta vez, no Amazonas: Parintins, Carauari, Coari, Eirunepé, São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Lábrea e Maués. 

Em nota, o Ministério da Infraestrutura (Minfra) informa que quase 23 milhões de pessoas na Amazônia Legal podem encontrar um aeroporto público em até duas horas de deslocamento. Entretanto, na avaliação de Augusto Barreto, a quantidade de aeroportos regionais na região ainda é insuficiente e “o gargalo do modal na Amazônia está principalmente nos interiores, que são muitas vezes negligenciados”.

Barreto explica que, neste cenário, frequentemente, a única opção para pessoas e cargas da Amazônia são as embarcações, com percursos mais demorados. “Isso reduz a competitividade comercial e turística da região, pois ainda falta uma visão mais integrada do sistema. Não podemos pensar em cada questão isoladamente, os modais de transporte precisam estar interligados e o planejamento deve ser pensado tanto para passageiros quanto para cargas”, finaliza.