De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a maior bacia hidrográfica do mundo, a amazônica, é a segunda mais poluída por plásticos no planeta. Diariamente, toneladas de lixo, e não apenas plástico, são despejados nos igarapés e rios da região, seja por embarcações, pela população urbana ou mesmo por ribeirinhos, que não costumam contar com infraestrutura de coleta de lixo.
Os igarapés levam os resíduos aos rios, estes ao rio principal, o Amazonas, e dele seguem para o mar, aumentando a poluição oceânica, que já é dominada por plásticos e microplásticos, com mais de 80 milhões de toneladas acumuladas. A poluição dos corpos hídricos por resíduos sólidos prejudica a fauna, a flora, a água, os sedimentos e a própria saúde humana. Os microplásticos, por exemplo, já são encontrados no interior de diversos seres aquáticos, animais terrestres e mesmo no corpo humano, o que pode causar agravos à saúde ainda não totalmente conhecidos.
Para conter o problema, são necessários educação ambiental, para evitar o descarte irregular de lixo pela população; coleta de lixo adequada; e redução no uso de descartáveis não biodegradáveis, sobretudo o plástico. Mas uma iniciativa, surgida no Paraná e que já se espalha por cidades amazônicas, pode contribuir para reduzir significativamente a presença do lixo em rios e igarapés da região.
ECOBARREIRAS
O método, simples, barato e sustentável, foi idealizado pelo ambientalista paranaense Diego Saldanha, que percebeu o volume crescente de lixo no rio Arituba, que passa aos fundos de sua casa, em Colombo, na Grande Curitiba. Ele desenvolveu e implantou neste rio uma estrutura, feita com galões flutuantes, cordas e uma rede submersa, que prende os resíduos sólidos que seguem pelo rio de acordo com a correnteza. Depois de ser barrado naquele ponto, o lixo é coletado e tem destino apropriado, seja para cooperativas de recicláveis, seja para o aterro sanitário.
A tecnologia, denominada ecobarreira, deu tão certo que se espalhou pelo País, inclusive na Amazônia Legal. Já há ecobarreiras instaladas, por exemplo, em Belém e Benevides, no Pará; em Manaus, no Amazonas; em São Luís e Imperatriz, no Maranhão; em Porto Velho, em Rondônia, em Boa Vista, em Roraima; e em Cruzeiro do Sul, no Acre. Em alguns locais, Diego ajudou a implantar. Outros, criaram suas próprias soluções. As estruturas permitem a coleta de toneladas de resíduos sólidos descartados irregularmente.
RIO BENFICA
A primeira cidade paraense a ganhar uma ecobarreira foi Benevides, na região metropolitana de Belém, em julho de 2025, com a consultoria de Diego Saldanha e apoio do programa Elos – Rios Vivos, da Natura, que atua na Amazônia promovendo a retirada de resíduos plásticos dos rios, o fomento a cadeias de reciclagem e a criação de embalagens feitas com o plástico retirado das águas.

A estrutura foi instalada em um dos braços do rio Benfica, na área central do município, em um ponto estratégico para conter o lixo descartado irregularmente. A ecobarreira flutua conforme o nível da água e direciona o lixo para a margem, para facilitar a coleta, sem que seja necessário entrar no rio. O material é recolhido por equipe da prefeitura, uma vez por semana, e destinado à ReciclaBen, cooperativa de catadores de recicláveis do município. Lá, o material passa por triagem e processamento e o que tem valor comercial para reciclagem é vendido, favorecendo, além da preservação ambiental, a economia circular e a geração de renda dentro da cidade.
De acordo com Welton Neves, secretário municipal de Gestão do Meio Ambiente e Turismo, a iniciativa tem uma visão de futuro. “Buscamos enfrentar os desafios da crise climática e promover a proteção da Amazônia com ações reais e permanentes”, destaca. A ecobarreira faz parte de uma ação maior, o Recicla Benevides, que em menos de dois anos já arrecadou mais de 200 toneladas de resíduos recicláveis, com o apoio de catadores e da população. A estratégia envolve coleta seletiva, pontos de entrega voluntária, parcerias com escolas e com o comércio local e campanhas de troca de recicláveis por moedas sociais, chamadas Econben, que podem ser utilizadas na aquisição de material escolar, ferramentas e itens domésticos.
Primeira ecobarreira de Belém fica no canal da Tamandaré
Alguns dias após a implantação da ecobarreira no rio Benfica, também em julho de 2025, foi a vez do canal da Tamandaré, que fica no bairro da Cidade Velha, receber a primeira ecobarreira da capital paraense.

De acordo com Marcelo Mattos, secretário adjunto de Zeladoria da Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana de Belém (Sezel), a instalação da ecobarreira também foi realizada com o apoio da empresa Natura e, desde então, já coletou cerca de 15 toneladas de lixo reciclável, fora os que não podem ser reciclados.
“Os resíduos acumulados na barreira de contenção são bastantes diversificados, com uma predominância maior de plásticos. São recolhidos, diariamente, aproximadamente 10 metros cúbicos de resíduos nas barreiras e comportas do canal da Tamandaré. Considerando o peso por metro cúbico, temos o quantitativo aproximado entre 400 a 500 quilos por dia”, informa o gestor.
O lixo retido na ecobarreira é retirado pela manhã e à noite por uma equipe de limpeza e colocado em recipiente apropriado para o armazenamento. Depois, o transporte é realizado diariamente por outra equipe até a Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis (Concaves). “Os cooperados utilizam esse material como matéria prima para fabricação de tijolos ecológicos e mobiliário urbano, como floreiras, lixeiras, piso tátil e tampa de bueiros”, conta Mattos.
“É extremamente importante a instalação desta e de outras ecobarreiras, que ainda serão implantadas, para reduzir a poluição que chega aos nossos rios. São mais de 190 quilômetros de canais que cortam a cidade. A instalação desse material impede que esses resíduos, descartados de forma incorreta por parte da população, cheguem aos rios”, ressalta Mattos.
Assim como Benevides, Belém também implementa centros que permitem ao cidadão trocar materiais recicláveis por pagamento via Pix, transformando o resíduo em benefício direto e evitando que chegue ao meio ambiente.

Igarapés de Boa Vista recebem estruturas
Quem também adotou a tecnologia das ecobarreiras foi a prefeitura de Boa Vista, em Roraima. Já foram instaladas três estruturas: duas no igarapé Caxangá e uma no igarapé Mirandinha. Segundo Rômulo Almeida, superintendente municipal de Conservação Pública do município, a iniciativa surgiu a partir da necessidade de redução da contaminação do rio Branco.
“No período do inverno são coletados em média 150 quilos de resíduos por semana. A retirada do lixo é realizada por uma empresa contratada e, por conta da contaminação, o material não pode ser reaproveitado por cooperativas de recicláveis: é enviado ao aterro sanitário municipal”, explica Almeida.
De acordo com o gestor, novos locais para a implantação de ecobarreiras em Boa Vista já estão sendo estudados, sobretudo visando à preparação para o próximo período chuvoso na capital de Roraima.
“As ecobarreiras são uma solução sustentável e eficaz para a redução da poluição em corpos d'água, contribuindo para a preservação do meio ambiente e da saúde pública. Além disso, promovem a conscientização sobre a importância do descarte correto de resíduos e o impacto da poluição na natureza”, destaca Almeida.

Ecobarreiras há dois anos protegem Manaus
Em Manaus, o uso das ecobarreiras já tem mais tempo: quase dois anos de implantação. A tecnologia segue o mesmo princípio da que foi criada por Diego Saldanha, mas tem estrutura e materiais diferentes. Na capital amazonense, o equipamento é feito com 90% de alumínio náutico e 10% de ferro galvanizado, que são as telas. A estrutura forma uma passarela, onde a equipe responsável pode andar e coletar os materiais.
A ecobarreira de Manaus foi criada por Manuel Brito, mais conhecido como Mazinho da Carbrás ou Mazinho da Ecobarreira. “Sou ativista ambiental, tenho uma caminhada de 20 anos na área. Tenho trabalhos nas lagoas de Manaus e há dois anos tive a iniciativa de implantação das ecobarreiras, que foi abraçada pela prefeitura. Desenvolvo esse projeto junto com a Secretaria de Limpeza Pública de Manaus, com doze ecobarreiras implantadas em pontos estratégicos da cidade, em vários igarapés e bairros diferentes”, explica Mazinho.
A coleta dos resíduos é feita diariamente por equipe da prefeitura, que passa por todas as instalações. A estimativa é que, em dois anos, mais de 900 toneladas de lixo já tenha sido paradas pelas ecobarreiras, deixando de ir para bueiros e para o rio Negro, que banha a cidade.
“A ecobarreira segura o lixo no raso no igarapé, não precisa de draga para limpar. Do material coletado, 60% é reciclável, que é destinado para cooperativas, e 40% vai para o aterro sanitário. É um sistema barato para o tamanho do problema. É um escudo silencioso que não gasta combustível, energia. Só precisa de manutenção simples quando alguma tela quebra. É o sistema mais barato do planeta para evitar que esse lixo entupa bueiros e cause alagamentos, mas também para evitar que chegue ao rio Negro, ao rio Solimões e ao oceano”, ressalta o ativista. A pretensão de Mazinho é que a instalação de ecobarreiras em igarapés urbanos se torne lei nos estados e municípios.

EDUCAÇÃO
Para Mazinho, a poluição dos igarapés tem duas soluções. Uma é a implantação de ecobarreiras. A outra é a conscientização da população. “Primeiro, é preciso que as pessoas entendam que não devem jogar lixo dentro dos igarapés. Mas, quando isso acontece, as ecobarreiras também ajudam a educar, porque revelam o absurdo, quando se vê o volume de lixo retido. As ecobarreiras seguram até 15 toneladas de lixo. É uma forma de a população ver o tamanho do estrago quando se descarta o lixo incorretamente”, afirma o ambientalista.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.