Quando se fala em insetos, o que vem imediatamente à sua mente? Algo desagradável ou mesmo perigoso à saúde, certo? De fato, há uma variedade de insetos que podem transmitir doenças pela picada, contaminar alimentos, provocar reações alérgicas ou mesmo causar dor intensa, no caso dos que são peçonhentos ou venenosos. Além disso, há os que causam pragas agrícolas, provocando a perda de produções inteiras e motivando o uso de agrotóxicos que contaminam os alimentos e o meio ambiente.
No entanto, os insetos danosos ao ser humano são uma porção ínfima diante da gigantesca quantidade dos que existem no mundo. A classe Insecta é o maior grupo de animais do planeta, fundamental para o equilíbrio ambiental e até mesmo para a vida humana, já que a produção alimentar depende de polinizadores, como as abelhas.
De acordo com o doutor em Ecologia Raphael Ligeiro, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), existem cerca de 2 milhões de espécies já descritas pela ciência, entre todos os tipos de organismos. Mais da metade, em torno de 1,1 milhão, é de espécies de insetos.
“Já na Amazônia, de uma forma geral, temos umas 300 mil espécies descritas. Dessas, cerca de 150 mil são de insetos. Ou seja, daqueles 1,1 milhão no mundo, 150 mil foram identificados na Amazônia. Porém, tanto em nível global quanto na Amazônia, a gente estima que deve conhecer só em torno de 10 a 20% das espécies existentes. Então, a gente imagina que o mundo pode ter até 10 milhões de espécies de insetos e a Amazônia, cerca de 1 milhão”, diz o docente.

ESTUDOS
Diante da variedade de seres vivos existentes na Amazônia, por que pesquisar, especificamente, os insetos, se especializando na área chamada entomologia? José Albertino Rafael, entomologista e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sediado em Manaus, explica sua importância na cadeia alimentar.
“Os insetos apareceram no mundo antes do ser humano. Eles tiveram uma responsabilidade muito grande de equilíbrio na natureza, que permitiu a evolução dos seres vivos ao longo de milhões e milhões de anos. Eles exercem um papel fundamental na cadeia alimentar, servindo de alimento para organismos maiores, e esses organismos maiores vão servindo de alimento para outros e outros. Portanto, se você quebra um elo dessa cadeia, vai interferir no topo, onde está o ser humano. Os insetos são extremamente importantes nos elos basais, nos primeiros elos que alimentam os organismos maiores”, explica.
Para além disso, Rafael destaca a função dos insetos na reciclagem de nutrientes na natureza. “Quando as folhas das árvores caem, elas são decompostas para servir de nutriente para outros organismos, principalmente as plantas que vão nos dar frutos. Então, os insetos têm um papel fundamental nessa quebra das partículas para serem aproveitadas pelos vegetais. E para as plantas darem frutos, grande parte delas precisa de polinizadores, que levam pólen de uma flor para outra, para fecundação. Isso também é feito pelos insetos. É um grupo de organismos que nós temos que respeitar. Muitas vezes, ficamos injuriados com a presença deles, mas eles são fundamentais na nossa vida na Terra, para a manutenção do equilíbrio na natureza”, enfatiza.
“Se hoje a gente tem uma floresta amazônica exuberante, alta e com tanta vida, é graças aos insetos que redisponibilizam os nutrientes para as plantas crescerem. Sem eles, não teríamos a floresta da forma como ela é”, completa Ligeiro.

Aquecimento global é ameaça
Uma pesquisa publicada na revista científica Nature, em março deste ano, indica que até metade dos insetos da Amazônia pode desaparecer por conta do aquecimento global. Embora algumas espécies possam se adaptar ao calor, outras sofrerão estresse térmico a ponto de desaparecer - inclusive algumas que ainda nem são conhecidas pela ciência.
Até então, se acreditava que os insetos seriam capazes de ajustar sua tolerância térmica com relativa facilidade, mas o estudo, realizado com mais de 2 mil espécies, sugere que o impacto do calor para esses animais pode ser muito maior do se imaginava, comprometendo sua existência e as funções que desempenham em seus respectivos ecossistemas.
“Com toda essa destruição ambiental que está acontecendo, é muito provável que a gente esteja perdendo espécies muito antes de conhecê-las. Eu sempre digo que não basta a gente simplesmente descrever uma espécie. Se a gente quer conservá-la, é preciso saber área de ocorrência, como ela vive, o que ela come, qual seu micro-habitat. É o que estudamos no Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPA: as relações ecológicas entre as espécies”, explica Ligeiro, que pesquisa insetos aquáticos amazônicos.
Para o biólogo e pesquisador da UFPA, o cenário é preocupante não apenas na Amazônia, mas globalmente. “Se você não tem abelhas suficientes no ambiente, pode não ter colheitas satisfatórias. Na China, a polinização está sendo feita de forma manual, por humanos. Na Amazônia, [a falta de polinização] seria igualmente catastrófica. Além disso, o aquecimento pode aumentar o metabolismo de certas espécies de insetos, aumentando a incidência de pragas. É uma infeliz possibilidade”, lamenta.

AMBIENTES
Os insetos amazônicos habitam uma diversidade de espaços, desde a água até a copa das árvores. Tanta variedade é fruto de milhões de anos habitando a Terra. “A barata está no planeta há mais ou menos 180 milhões de anos. Elas conviveram com os dinossauros, sobreviveram à catástrofe que os dizimou e estão até hoje com a gente. Nesse tempo todo, os insetos conseguiram dominar praticamente todos os ambientes que você possa imaginar”, afirma Ligeiro.
“Há insetos em ambientes de água doce, que habitam cavernas onde o ser humano nunca foi. Há outros no subsolo: se você perfurar dois metros abaixo da superfície, vai encontrar. Há os que vivem nas primeiras camadas de solo, onde se encontra a maior parte da matéria orgânica. E há os que habitam diferentes estratos da vegetação, desde a vegetação rasteira, estratos intermediários e os que só existem no dossel, no alto da copa das árvores. Os que estão embaixo não vão para cima e vice-versa”, esclarece o professor.
Vários níveis da vegetação são estudados
Justamente para estudar essa diversidade de insetos presentes nos vários estratos da vegetação, foi criado o projeto Biodossel, realizado pelo Inpa e coordenado por José Albertino Rafael, em parceria com o projeto BioInsecta, da Universidade de São Paulo (US).
“Existe um mundo desconhecido de insetos que habita o dossel das árvores, uma riqueza ainda maior do que a fauna que habita o nível do solo, onde o homem normalmente pode explorar sem maiores dificuldades. Como há esse desafio de acessar continuamente esses estratos superiores, a gente ainda desconhece esses insetos. Por isso, desenvolvemos o Biodossel, que coloca armadilhas em diferentes alturas a partir do nível do solo: aos sete, quatorze, vinte um e vinte e oito metros, esta última a altura média do dossel nas proximidades de Manaus, onde realizamos os experimentos, em três pontos de coleta”, descreve Rafael.
A quantidade de insetos coletada é enorme: 60 mil exemplares a cada 15 dias. “Só por meio do DNA a gente consegue identificar pelo menos o gênero e, quando possível, as espécies, se conhecidas, e descrever e nomear as desconhecidas. Começamos a ter resultados surpreendentes, inéditos, de uma fauna que nunca desce para o solo. É uma grande quantidade de informações de espécies novas que serão descritas em um futuro muito próximo”, adianta o entomólogo.

BIOINDICADORES
Além dos papeis ecossistêmicos já citados, os insetos têm uma outra função importante para os humanos: o de bioindicadores, ou seja, têm a habilidade de mostrar a qualidade ambiental de um espaço.
“Dentro da grande diversidade de insetos, existem alguns mais sensíveis. Então, quando há alguma alteração na qualidade da água, por exemplo, com mais pesticidas ou material de esgoto, essas espécies não resistem, porque precisam de água limpa, ambiente preservado. Por outro lado, existem aqueles que se beneficiam desse impacto, como larvas de mosquitos ou moscas. Quando tem aumento de matéria orgânica, eles dominam, aumentam estrondosamente em número. Então, usamos esse tipo de observação como uma ferramenta para diagnosticar o estágio ecológico daquele ambiente”, destaca Ligeiro.

DESAFIOS
Segundo o professor da UFPA, uma das dificuldades de estudar insetos, em especial na Amazônia, é a logística. “Imagine ter que subir 60 metros para coletar insetos no dossel de árvores gigantes, animais que são quase microscópicos. Além disso, na Amazônia, existem as grandes distâncias. Ir para o meio da mata, longe de qualquer cidade, é muito custoso. Faltam recursos, faltam pesquisadores. A maior parte dos estudos com insetos na região é feita perto de grandes cidades, estradas ou rios, onde há mais acesso. São limitações para que a gente conheça mais esses animais”, afirma Ligeiro.
Rafael defende o maior investimento em pesquisas sobre a biodiversidade. “Eu costumo dizer que o ser humano gasta bilhões em busca de formas de vida em outros planetas, mas não investe o suficiente para desvendar os organismos que convivem com ele desde que ele vive na Terra”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.